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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Abrindo o seu olho interior: o fim da solidão


Abrindo o seu olho interior:

O fim da solidão

Por Gerrit Gielen

Tradução a 19 de junho de 2026



Imagine ver o mundo não só com os seus dois olhos físicos, mas também com um olho interior que vê muito mais profundamente. Este olho interior — frequentemente chamado de terceiro olho — é o órgão através do qual se apercebe dos seus próprios pensamentos, sentimentos e mundo interior. Feche os olhos por um instante. Você ainda está aqui. Apercebe-se de pensamentos a passar, emoções a surgir e imagens a aparecer espontaneamente. Esse é o seu olho interior em ação, a observar tudo.

Na nossa cultura ocidental, contudo, esquecemo-nos de quão poderoso este olho realmente é. Influenciados por uma ciência materialista, passámos a acreditar que o nosso mundo interior é uma ilha privada, completamente separada do mundo dos outros. Tudo o que está fora de nós é considerado “morto” ou meramente físico: uma pedra não tem consciência, uma árvore não tem vida interior e outra pessoa é principalmente um corpo com uma história diferente.

Esta crença cria uma profunda solidão porque bloqueia a capacidade natural do nosso olho interior para perceber o mundo interior dos outros.

O preço do isolamento
Muitas pessoas sentem a crise silenciosa que se desenrola na sociedade ocidental. Apesar de mantermos uma ligação constante através das redes sociais e de agendas preenchidas, sentimo-nos mais sozinhos do que nunca. Perdemos o nosso vínculo natural com os outros, com os animais, com a natureza e até com o próprio universo.

Quando éramos crianças, era diferente. Lembra-se de como conseguíamos sentir instantaneamente o humor do professor ou de toda a turma? Como é que uma atmosfera coletiva afetava todos ao mesmo tempo? As crianças vivem mais conectadas do que os adultos.

À medida que envelhecemos, aprendemos a ignorar esta ligação. Fechamos o nosso olho interior e começamos a experienciar o mundo como uma coleção de objetos separados. O resultado não é apenas a solidão, mas também o preconceito, o racismo, o julgamento e o medo. Sem a visão interior, vemos apenas o exterior: uma cor de pele diferente, um género diferente, uma cultura diferente. O pensamento imediato que surge é: “São diferentes, logo, uma ameaça”.

Porque é que o nosso olho interior se fechou?

Durante séculos, o olho interior foi mal utilizado. Aqueles que conseguiam perceber o mundo interior de outra pessoa também podiam influenciá-lo, por exemplo, plantando pensamentos. Histórias de manipulação, feitiçaria e controlo interior deixaram cicatrizes profundas. As pessoas que usavam esta capacidade abertamente eram evitadas e, eventualmente, perseguidas. O medo do abuso levou à supressão colectiva desta capacidade natural.

No entanto, é tempo de se libertar desse medo. Na sua essência, o olho interior é uma força bela e conectiva. Ele mostra-nos que tudo é permeado pela consciência. Que, ao nível mais profundo, tudo é um só.

Como libertar o seu olho interior?

Felizmente, pode despertá-lo novamente. Começa com três passos simples:

1.º Aceite que ele existe

Perceba que o seu mundo interior não está separado do mundo dos outros. Com o seu olho interior, também pode perceber os sentimentos, as intenções e a consciência de outra pessoa.

2.º Conceda a tudo um mundo interior

Não só os humanos, mas também os animais, as plantas e até coisas aparentemente "mortas", como as pedras ou as estrelas, possuem uma vida interior. Quando se olha com os dois olhos — o exterior e o interior — emerge uma imagem completa.

3.º Ouse olhar

Esteja disposto a realmente fazê-lo. Feche os seus olhos físicos e use a sua imaginação. Imagine o que é ser outra pessoa. Como é a manhã dela? Que pensamentos lhe passam pela cabeça? Porque é que ela age da maneira que age? Livre-se dos preconceitos e aproxime-se do outro com curiosidade e amor.

Perceberá barreiras mentais a surgir (“Estou apenas a fantasiar”). Isso é normal. Seja gentil consigo mesmo e pratique regularmente. A imaginação é uma maravilhosa porta de entrada para o olhar interior.

Um olhar de amor

Quando abre o seu olhar interior a partir do coração, tudo muda. O julgamento dá lugar à compreensão. A distância transforma-se em conexão. A solidão dissolve-se na perceção de que nunca esteve verdadeiramente sozinho.

Libertar o seu olhar interior não é uma escolha fantasiosa. É um passo revolucionário para uma vida mais rica, mais empática e mais alegre — uma vida na qual se está genuinamente ligado a tudo o que existe.

É um passo em direção à cura. Não apenas a sua própria cura, mas a cura da humanidade.

Atreva-se a fechar os olhos. E depois, olhe de verdade.

O mundo anseia por ser visto de novo — por dentro.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O Sentido da Vida: Ser Humano


O Sentido da Vida: Ser Humano

Por Gerrit Gielen

Tradução a 20 de abril de 2026


A questão do sentido da vida é tão antiga como a própria humanidade. Ao longo dos séculos, foram oferecidas inúmeras respostas. No entanto, muitas pessoas ainda sentem a sua existência como algo sem sentido. Sentem-se tristes, deprimidas ou até mesmo sem esperança. Algumas não vêem saída e tiram a própria vida — até mesmo jovens. Sobretudo quando a vida dói, surge aquela pergunta urgente: qual é o sentido de tudo isto?

Costuma-se dizer-nos que a vida só ganha sentido quando alcançamos um objetivo específico, a felicidade, a autorrealização ou algum "propósito de vida" especial que supostamente devemos descobrir. Mas isso significaria que a vida é sem sentido para muitas pessoas que nunca atingem esse objetivo.

O verdadeiro sentido não pode ser uma recompensa pelo sucesso ou um ponto final que apenas alguns alcançam. Deve basear-se em algo que todos partilhamos, independentemente dos nossos sucessos ou fracassos. Por outras palavras, se a vida tem sentido, tem sentido para todos, independentemente do que façam com as suas vidas. Não vem com condições — é uma dádiva incondicional para todo o ser humano. Se a vida não tivesse sentido, simplesmente não existiria. Mesmo quando tudo corre mal, mesmo quando tudo parece falhar, a vida continua a ter sentido. Aquilo que consideramos uma vida sem sentido ainda carrega significado em si.

A razão pela qual muitas vezes não a vivenciamos desta forma tem tudo a ver com a forma como fomos ensinados a pensar e a julgar quando éramos crianças.

Como aprendemos a pensar sobre o significado

Uma das primeiras coisas que ensinamos às crianças é a pensar em termos de certo e errado. Ainda me lembro claramente da escola primária, com uma grossa linha vermelha a riscar tudo o que errava. Se fizesse tudo bem, todos ficavam felizes e orgulhosos. Obtinha-se nota máxima e podia-se escrever com tinta colorida — exceto amarela, porque a professora não conseguia ler corretamente. Nessa altura, ainda usávamos canetas de aparo e tinteiros.

As crianças que cometiam muitos erros tinham de repetir o ano. Eram separadas do grupo, o que era um castigo severo. Nessa altura, ninguém considerava realmente o impacto psicológico que isso tinha na criança. A lista de coisas que uma criança podia fazer de errado parecia quase interminável.

Em síntese, fomos condicionados a ver tudo pela ótica do certo e do errado, especialmente as nossas próprias escolhas. Crescer significou, em grande parte, interiorizar normas e valores, o que para uma criança parecia bastante artificial.

Sem nos apercebermos, começamos a tratar toda a nossa vida como uma prova. Se acumularmos muitas "linhas vermelhas", reprovamos e temos de repetir. Isto leva-nos a acreditar que a vida só tem sentido se fizermos as coisas "certas". A religião tradicional estende este mesmo pensamento binário: Deus versus Satanás, céu versus inferno, crentes versus não crentes. Impõe-nos a terrível ideia de que uma pessoa pode falhar eternamente.

Como resultado, passamos a viver de acordo com as regras de uma autoridade externa cujo principal objetivo é manter o poder. Ser adulto significa tornar-se uma engrenagem na máquina. Significa que já não podemos ser crianças. E deixar de poder ser criança significa que já não podemos confiar plenamente na vida. A alegria, a brincadeira e a criatividade desaparecem e são substituídas pelo medo e pela obediência. Gradualmente, começamos a experienciar a vida como vazia e sem sentido porque deixámos de ouvir a nossa própria força vital interior.

É assim que nasce uma crise permanente de sentido.

Enquanto continuarmos a encarar a questão do sentido através da lente do certo/errado, a crise nunca terminará, porque essa lente é a própria causa dela. Então, vamos tirar esses óculos e olhar para o que chamamos "erros" de uma perspetiva diferente.

Erros: uma perspectiva diferente

Por vezes, as coisas correm terrivelmente mal na vida. Um condutor alcoolizado mata uma criança, por exemplo. Tanto os pais como o agressor ficam marcados para a vida. Que isto é uma tragédia é indiscutível. 1)

Mas o que acontece se não olharmos para o acontecimento isolado, mas o observarmos numa perspetiva muito mais ampla — do ponto de vista do universo, do todo em que cada vida individual está inserida? Ainda podemos falar de "erros" como algo que simplesmente correu mal?

O nosso juízo sobre o que está errado está intimamente ligado à nossa perspectiva e, especialmente, à nossa percepção do tempo. Vemos um tempo antes do erro, o momento do erro e o tempo depois dele, passado, presente e futuro. Dentro desta estrutura, esperamos cura, reconciliação ou significado. Mas como é que essa mesma realidade se apresenta quando vista de uma perspetiva intemporal, onde o universo é visto como um todo indivisível?

Uma metáfora comum é o relógio. Se um relógio tem engrenagens defeituosas, dizemos que está avariado. O todo não funciona como deveria. Da mesma forma, defende-se que se o universo contém erros, então o todo é falho. Mas se o universo é fundamentalmente falho, a própria existência torna-se problemática, um esforço sem sentido e sem alternativa. Como pode o todo ser bom quando contém tanto sofrimento e tantos descarrilamentos?

Vamos tentar uma metáfora diferente: o livro. Um bom livro não é aquele em que nada corre mal. Pelo contrário, um bom livro é significativo e perspicaz precisamente porque as coisas correm mal. Crime e Castigo, de Dostoievski, é um exemplo clássico. O protagonista, Raskólnikov, comete um duplo homicídio e é atormentado pela culpa e pelo remorso. A história está repleta de descrições de sofrimento e colapso moral, mas é exatamente aí que reside o seu poder: explora as consequências internas da culpa com uma profundidade extraordinária.

Porque consideramos um livro assim valioso? Porque a realidade que ele descreve não é a nossa realidade pessoal. Entramos nela temporariamente e a partir de uma distância segura. Podemos fechar o livro e afastar-nos. Ao mesmo tempo, ele revela algo de profundo sobre a condição humana, sobre a culpa, a responsabilidade e o conflito interno. Ele enriquece-nos sem nos ferir pessoalmente.

Isto leva-nos a uma importante constatação: uma realidade pode estar repleta de erros e sofrimento quando vista de dentro, mas ainda assim ser significativa e até valiosa quando vista de fora. O universo em miniatura de um livro extrai o seu significado não apesar dos seus erros, mas por causa deles.

Podemos aplicar o mesmo princípio ao próprio universo. O que parece um erro no fluxo do tempo pode, de uma perspectiva intemporal, ser uma parte essencial de um todo significativo, um todo que nós, vivendo dentro dele, só podemos experimentar em fragmentos e a partir de dentro. O significado surge quando combinamos ambas as perspetivas.

Podemos comparar a nossa própria vida a um livro que também estamos a ler? E, se sim, será que essa perspetiva dá sentido à vida?

A nossa vida como um livro que estamos a ler
Se a nossa vida é um livro, então quem é o leitor?

Essa é a questão fundamental. Esta vida é um acontecimento isolado ou faz parte de algo maior que lhe dá significado? Só no segundo caso os nossos tropeções, erros e fracassos adquirem um peso diferente. Já não são meros erros, mas passagens necessárias na história da nossa vida.

A minha resposta é sim. Existe uma perspectiva superior dentro de nós a que chamo alma. Não como um dogma religioso, mas como uma realidade interior viva, uma dimensão nossa que não está limitada pelo tempo, espaço ou história pessoal. Transcende tudo isso e, a partir desse ponto, cada experiência da nossa vida ganha significado.

Pode negar isso, mas depois terá de aceitar que uma vida pode realmente falhar, que, em última análise, não tem sentido e que simplesmente termina com a morte. A pessoa desaparece sem deixar rasto, como se nunca tivesse existido. No fim, tudo se desvanece numa noite sem fim.

Se experiencia a vida como significativa ou não depende inteiramente da perspetiva que adota. É uma escolha: respondes sim a esta pergunta — a minha vida tem sentido mesmo quando as coisas correm mal, mesmo quando às vezes é miserável?

A vida só pode parecer significativa se se vir a si próprio e se sentir como algo mais do que um indivíduo acidental inserido num tempo e num lugar aleatórios. Só pode ser significativa se houver algo dentro de si que transcenda o tempo e o espaço, que é a alma, a luz intemporal que verdadeiramente é.

Quando se abre a essa possibilidade, algo muda. A sensação de ser vítima dá lugar à compreensão de que se é um aprendiz, alguém que está aqui para aprender, que tem permissão para falhar, que falha e que cresce com essas falhas. Os erros tornam-se fontes de sabedoria e discernimento. Começa a sentir-se amparado por uma presença amorosa na sua jornada. Já não está sozinho.

A perspectiva inverte-se.

A metáfora do livro vai ainda mais longe. Um leitor não quer uma história perfeita. Muito pelo contrário, uma boa história necessita de conflito, juízos errados e cegueira moral. Sem erros não há crescimento, sem crise não há profundidade, sem erros não há aprendizagem real.

Aquilo que a personagem principal vive como um desastre é, muitas vezes, o momento em que a história se torna verdadeiramente interessante para o leitor.

Inverte completamente a perspectiva. Aquilo que pessoalmente vejo como um erro, a alma vê como uma experiência necessária, a faísca para a transformação. A História não pode congelar; ela precisa de continuar a desenrolar-se. Sem estagnação, apenas crescimento.

É por isso que não cometemos erros por acaso; somos feitos de tal forma que certos erros são inevitáveis. A nossa personalidade já carrega as sementes dos nossos erros. Tal como o sentido de superioridade moral de Raskólnikov o leva a cometer os seus crimes, o nosso próprio carácter conduz-nos a problemas em momentos críticos.

Neste sentido, a imperfeição não é uma falha, mas antes uma exigência. Sem erro não há compreensão. Sem trauma não há cura. O imperfeito é aquilo de que a alma necessita para se realizar.

Deixe que esta ideia penetre na sua mente: a força que dá sentido à vida dentro de nós não anseia por uma vida perfeita. Ela anseia por experiências valiosas. Ela quer que tropecemos, que nos percamos e que nos encontremos na resistência da vida. Fomos feitos para que isso aconteça. O nosso carácter é o nosso destino, mas somos muito mais do que apenas o nosso carácter.

E viveram felizes para sempre.

Muitas histórias, especialmente os contos de fadas, terminam com as palavras "e viveram felizes para sempre". Este final é profundamente simbólico. A história da nossa vida termina com a morte. Depois disto, vem a reunião do masculino e do feminino dentro de nós, o despertar para quem realmente somos. Depois, um novo capítulo de paz e profunda felicidade começa, pelo menos durante algum tempo, sem mais aventuras.

Quando podemos dizer, ao fecharmos o livro da nossa vida, "Esta foi uma vida linda"? Podemos dizê-lo quando a nossa vida nos trouxe novas experiências e encontros que nos enriqueceram interiormente. Uma vida repleta de erros é, geralmente, bastante rica em valiosas lições.

O propósito de uma vida

O propósito de um bom livro não é retratar um mundo perfeito com pessoas perfeitas. O seu propósito é enriquecer a nossa mente e mostrar-nos aspetos da realidade externa e interna que desconhecíamos.

É exatamente isso que a vida na Terra faz por nós. Mesmo uma vida que parece monótona ou sem graça dá-nos algo, ainda que seja apenas a sensação de saudade. Não podemos sentir falta de algo que já não está presente dentro de nós. Esta própria ânsia contém uma descoberta, a descoberta do nosso milagre interior, o brilho da nossa alma.

Em suma, quando retiramos os óculos do certo/errado, verificamos que os erros são a própria matéria-prima com que se constrói uma vida com sentido. Conduzem a experiências, perceções e aventuras que jamais conheceríamos de outra forma. A vida não é uma prova a ser aprovada, mas sim uma viagem repleta de reviravoltas, rica em possibilidades, crescimento e maravilhas. Em cada passo em falso e em cada reviravolta inesperada reside a semente do significado. A vida é significativa precisamente porque é humana, ou seja, repleta de erros e, por isso, repleta de oportunidades para aprender, sentir e crescer.

Conclusão: o valor de ser humano
Do ponto de vista da alma, cada experiência humana é única e valiosa; há solidão, dor e fracasso, sim, mas também a beleza de uma flor ou de um gesto gentil. Até os momentos comuns do dia-a-dia enriquecem a alma. Contudo, o mais valioso de tudo é descobrir quem realmente é.

Um peixe não sabe o que é água até saltar para fora dela. Da mesma forma, a alma perde o contacto consigo mesma no ser humano e descobre-se precisamente através desta separação. O nosso sofrimento mais profundo é esta sensação de separação de nós mesmos. Por que razão passamos por isso? Porque esta separação torna possível uma grande aventura, a descoberta do cosmos, a viagem de regresso a casa e a redescoberta da nossa própria luz.

Uma flor, um nascer do sol, uma bela música, o amor nos olhos de alguém, palavras sábias, tudo isto faz lembrar a alma de si mesma. A alma vê o seu próprio reflexo e reconhece a sua beleza. Isto só é possível porque a consciência humana começa com a supressão da percepção da alma. Tornar-se humano é escolher a solidão, a ignorância e a liberdade, a liberdade de errar.

A partir desse ponto, embarcamos em aventuras selvagens, abraçamos ideologias insensatas e até iniciamos guerras até que chegue a magnífica redescoberta, o despertar da alma, o despertar para nós próprios. Quanto mais profundamente sentimos a sua ausência, mais maravilhosa se torna a descoberta final.

Nada é sem sentido. Cada passo em falso é uma oportunidade para sentir e crescer. Nos nossos erros, descobrimos o divino.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Atlântida Agora: O Regresso a Casa


Atlântida Agora: O Regresso a Casa

Por Gerrit Gielen

Tradução a 31 de janeiro de 2026


Muito se tem escrito sobre a Atlântida: o que lá aconteceu, como e por que razão caiu, mas este texto analisará a Atlântida numa perspetiva psicológica. Estou particularmente interessado nos problemas psicológicos que os governantes da Atlântida têm enfrentado desde então e como continuam a ter repercussões nos dias de hoje.

Sabemos que a história deixa marcas e vestígios na nossa psique. Não existe passado no que diz respeito às feridas da psique; tudo é agora. Os acontecimentos da nossa infância e vidas passadas permanecem dentro de nós. As camadas de quem somos e fomos em vidas passadas são como os anéis de crescimento de uma árvore. Estamos aqui agora; sobrevivemos. No entanto, as evidências dos tipos de vida que vivemos há eras mantêm-se. Podemos não as ver, mas o nosso comportamento revela-as.

Se considerarmos esta analogia dos anéis de crescimento das árvores, então cada período histórico do nosso passado corresponde a um "anel" de vida que ainda está dentro de nós. A nossa história é a nossa psique, a nossa personalidade. Cada anel contém energia relacionada com as vidas que vivemos num determinado momento. Em conjunto, contêm uma variedade de personalidades e experiências, refletindo e relacionando-se com um período específico da nossa história.

É importante compreender quem fomos e o que fizemos no passado, pois isso dá-nos insights sobre quem somos agora e como seguir em frente. Quando compreendemos o passado, este ilumina o nosso caminho para o futuro e, se não dedicarmos tempo a compreendê-lo, podemos permanecer presos à energia de quem fomos um dia e continuar a repetir os mesmos padrões.

Existem quatro anéis que distinguem os Trabalhadores da Luz:

O Anel Cósmico — O Núcleo
O Anel Atlanteano
O Anel Exterior
O Anel Humano

Quando os quatro anéis trabalham em conjunto em harmonia, ligam o Cósmico ao Terrestre. Infelizmente, isto nem sempre acontece, pois a energia de um anel pode entrar em conflito com a de outro, bloqueando o fluxo energético do núcleo.

Este artigo trata dos anéis, das tensões que contêm e de como podemos resolvê-las. Como sempre, o autoconhecimento é fundamental.

O Anel Cósmico — O Núcleo

Estamos profundamente ligados ao cosmos. Antes de virmos à Terra, vivíamos entre as estrelas; o universo era o nosso domínio. Passamos muitas vidas entre as estrelas noutros reinos e dimensões. Os Trabalhadores da Luz sabem, portanto, melhor do que ninguém que a infinitude e a riqueza do universo residem dentro deles. Sentem-se profundamente conectados às estrelas e ao universo eterno.

Os Trabalhadores da Luz sempre tiveram um profundo desejo de ligar o seu núcleo cósmico com o anel exterior, formando assim um canal entre o reino terreno e o cosmos. Propuseram-se a tarefa de integrar o planeta Terra e a civilização humana no cosmos. Era isso que os primeiros atlantes também desejavam. Em última análise, podemos considerar este desejo como uma aspiração psicológica inerente à própria humanidade. Cada ser humano tem um impulso natural para conectar o seu ambiente social na Terra com o seu núcleo cósmico para alcançar a harmonia. É assim que manifestamos os nossos impulsos criativos.

Nem sempre conseguimos conseguir isto porque as ruturas traumáticas num ou mais dos anéis impedem o fluxo de energia, e isto é doloroso para os trabalhadores da luz. Isto explica porque se afastam do mundo, pois não acreditam ser possível aceder ao seu núcleo e conectar-se com ele. O trauma que vivenciaram e o medo da rejeição são demasiado grandes para serem ultrapassados.

No entanto, apesar destes traumas passados, o anseio de ser si mesmo no meio deste mundo permanece. Ser si mesmo significa ter uma profunda consciência da sua identidade cósmica, uma característica partilhada por todos os trabalhadores da luz. Se não consegue ser você mesmo, é impossível conectar-se com os seus semelhantes, consigo mesmo e com o ambiente que o rodeia. Isto provoca uma tensão interna que pode levar a problemas psicológicos e físicos.

Não seria a vida maravilhosa se pudéssemos ser nós próprios, se nos sentíssemos aceites no nosso meio social por quem somos? Precisamos de nos perguntar por que razão isso é tão difícil. Diria que é difícil porque está ligado a eventos distantes no tempo, que ainda residem dentro de nós e ainda estão perto de nós. Os acontecimentos em que estou a pensar ocorreram na época da Atlântida.

O Anel Atlanteano: Poder e Solidão — Acima do Povo

Quando os atlantes encarnaram na Terra, as suas intenções eram boas. Queriam proteger as pessoas e salvá-las de outras energias extraterrestres. Queriam educá-las e, em última instância, ligar o planeta perdido, a Terra, ao Cosmos. O que não fizeram no início da sua jornada foi conectar-se com a própria Terra. O que quero dizer com isto é que não conseguiram interiorizar a Terra. Em vez disso, pensaram que poderiam alcançar os seus objectivos exercendo poder sobre os habitantes da Terra. O seu poder tinha origem no seu conhecimento cósmico, na sua expertise tecnológica e no poder do seu terceiro olho. Pensaram que, com estes poderes extraordinários, fariam o bem. O seu erro foi não compreender o que o exercício do poder sobre os outros lhes causaria.

A psicologia do poder

Costuma dizer-se que o poder corrompe. Os governantes presumem que têm liberdade para exercer poder sobre os outros. Nada no universo incentiva tanto o autoengano como o poder. Se o tem, pensa que é melhor e mais especial do que os outros; caso contrário, não o teria à sua disposição, o universo não lho teria concedido. Mas ter poder sobre os outros traz consigo inúmeras consequências. Distorce a espiritualidade inata. Cria medo e paranóia e, acima de tudo, gera uma profunda sensação de solidão. Podemos comparar o poder a uma droga altamente viciante.

Vamos explorar mais a fundo como o exercício do poder sobre os outros impacta a consciência.

Numa relação de poder, quem detém o poder nega a existência da consciência única do outro. Vê as pessoas como uma extensão de si mesmo, no sentido em que pode fazê-las fazer o que quiser, tal como pode controlar a sua própria mão. Consequentemente, para este tipo de governante sedento de poder, a vida de um soldado, ou de qualquer pessoa, pouco significa.

Quando uma pessoa poderosa se relaciona com os outros desta forma, há consequências que afetam a sua consciência. A consciência humana implica uma Unidade com os outros, que reflete a Unidade maior com o universo, o que significa que tudo o que está fora de si está também dentro de si. No nível mais profundo, o universo é Uno, e a sua consciência coincide com essa Unidade. Este conhecimento está no cerne de toda a verdadeira espiritualidade. Exercer poder sobre as outras pessoas é negar essa Unidade interior e, como resultado, quem exerce o poder suprime não só algo exterior a si, mas também algo interior. Quando negam que as pessoas tenham consciência, fazem uma escolha extremamente anti-espiritual. Qualquer homem que exerça poder sobre as mulheres, por exemplo, suprime o feminino dentro de si. Aqueles que exercem poder sobre os animais rompem a sua ligação com a natureza e perdem o contacto com a energia Materna que os deseja influenciar para o bem.

É impossível promover a espiritualidade através de uma relação de poder. É uma contradição nos termos. A relação de poder nega tudo o que a espiritualidade representa. A espiritualidade propagada através de uma relação de poder não é espiritualidade nenhuma. É subjugação, não uma busca pela consciência.

Um bom exemplo deste tipo de situação de poder é a organização hierárquica da Igreja Católica, que opera com base num sistema de punição e recompensa. A hierarquia masculina utiliza ideias de inferno e pecado para coagir os seus fiéis à submissão e obediência. Deus é retratado como um ditador com um poder infinito sobre as pessoas, e não como a fonte do amor incondicional e a Unidade por detrás de toda a forma, incluindo o corpo físico. O universo, que é Unidade, não é percebido nem vivido como tal, mas como uma hierarquia de governantes e autoridades masculinas. Quando a espiritualidade se resume a forçar o crente a adotar um sistema de crenças específico e à submissão, não há espaço para a ligação interior da humanidade com o Cosmos. Está fragmentada em duas.

Este tipo de espiritualidade cria uma identidade falsa nas pessoas, uma crença numa espiritualidade exterior transmitida pelas autoridades, que elas inevitavelmente adotam. A crença num mundo de dualidade, divisão e separação substitui qualquer sentido de Unidade. Isto gera solidariedade nas organizações hierárquicas dirigidas por aqueles que não reconhecem a igualdade entre as pessoas, uma crença numa autoridade externa em detrimento da confiança na própria verdade interior, e a ideia de que o amor condicional prevalece sobre o amor incondicional.

O amor condicional é uma ferramenta utilizada para manipular as pessoas e levá-las a comportarem-se de determinada forma. O perpetrador obriga as pessoas a obedecer à sua vontade. O amor condicional não é amor verdadeiro, mas as pessoas usam a palavra "amor" para manipular os outros, ameaçá-los, controlá-los com o poder do medo e forçá-los à obediência.
Este exercício de poder conduz inevitavelmente à perda de uma forma autêntica de espiritualidade. Foi isso que os atlantes fizeram. Tentaram ter sucesso na sua missão difundindo este tipo de espiritualidade, mas, no final, fracassaram. O seu objetivo era completamente inatingível devido à forma como o abordaram. 

O exercício do poder em relação às relações com outros seres humanos
É curioso pensar no que alguém no poder pensaria se parasse para imaginar como seriam as suas relações se não tivesse o poder de dominar. A resposta é que os relacionamentos desapareceriam. Quando se exerce poder sobre o outro, o amor genuíno, a verdadeira amizade e o afeto que a acompanha ficam estagnados e incapazes de fluir livremente. É provável que aqueles que são dominados odeiem a autoridade que os oprime e, com o tempo, libertem a sua fúria contra o opressor. O governante sedento de poder também se apercebe disso, o que cria uma profunda desconfiança de ambos os lados. Um ditador tentará aplacar esta potencial fúria exercendo ainda mais poder sobre as pessoas, o que leva à propagação do terror.

Os sedentos de poder não sabem como ter empatia com o outro e interagir de forma humana. A sua natureza é comunicar por meio de ordens. Não sabem falar honestamente, de coração, o que para eles seria um sinal de fraqueza. Não sabem ter empatia, nem aprendem a ouvir ou esforçam-se para compreender os outros. Vêem os outros como inferiores. Não têm nada a aprender com eles. Por que razão alguém, num patamar superior, desejaria conversar com alguém num patamar inferior?

Quando se exerce poder sobre alguém, quebra-se uma ligação natural, tornando impossível a comunicação honesta e espontânea. As pessoas que detêm o poder são de mente fechada, medrosas e incapazes de qualquer tipo de interação social normal. Os ditadores não têm amigos. Estão rodeados por bajuladores. Qualquer pessoa com uma opinião é vista como uma ameaça. As ligações genuínas com os outros não são apenas impossíveis, mas completamente quebradas. As ligações quebradas levam à solidão, e a solidão leva ao medo. O governante tenta superar o seu medo exercendo ainda mais poder sobre as pessoas, criando, assim, uma espiral negativa. O resultado é paranóia, medo de perder o poder e medo de vingança. Perdem toda a perspetiva, consideram a felicidade ilusória e não conseguem desfrutar das coisas belas da vida, incluindo as verdadeiras amizades. Tudo se perde. A vida gira exclusivamente em torno do poder e do medo.

Um governante pensa em termos de dualidade, que é outra palavra para medo e solidão.

O poder gera solidão.

A verdade é que os Trabalhadores da Luz ainda lutam contra a solidão por terem participado na experiência atlante. Em última análise, esta espiral negativa de poder leva à solidão e ao medo, que, por sua vez, alimentam uma necessidade ainda maior de poder e, eventualmente, levam a um colapso, porque as forças da vida irão retaliar. O universo e a própria Terra já não aguentavam mais este ciclo insano da Atlântida, e a torre do poder desabou com um estrondo ensurdecedor. Foi isso que aconteceu na Atlântida quando o dilúvio irrompeu, e é assim que ainda hoje acontece. Grandes impérios caem, e os que estão no poder ficam psicologicamente devastados no final das suas vidas.

Isto era verdade para muitos dos atlantes. As suas profundas perceções deram lugar a uma espiritualidade rígida; não aprenderam a conectar-se com o seu ambiente e com os seus semelhantes de uma forma natural e igualitária. Após esta experiência falhada, reencarnaram como filhos da Terra sem poder, mas com problemas psicológicos resultantes do abuso de poder. O caminho para a cura foi longo e, por vezes, muito doloroso.

O Anel do Forasteiro: Entre o Povo

O nascimento de um novo ambiente é sempre um convite para forjar novas ligações e crescer. A consciência estende-se ao outro, conecta-se com ele e cresce. Qualquer pessoa que já se tenha imergido noutro país e cultura sabe o quão enriquecedor isso pode ser. As pessoas procuram frequentemente, inconscientemente, um novo ambiente porque sentem um anseio na sua alma de descobrir algo novo dentro de si. Um novo ambiente alinha-se com esse anseio.

Os atlantes estavam muito alheios a este facto. Não se conectaram com a Terra, mas, em vez disso, tentaram dominá-la. Havia pouca ou nenhuma ligação social com as almas da Terra, nem uma ligação interior com a própria Terra. Perderam a sua profunda ligação com o cosmos ao assumirem uma posição de poder. A sua evolução natural estagnou. A razão psicológica mais profunda para virem à Terra era o desejo de desenvolver a consciência do coração. No entanto, este estado de estagnação criou uma tensão que, em última análise, desencadeou a ação das forças da natureza, levando à queda dos atlantes. A natureza restaurou o equilíbrio.

A nossa consciência ainda retém a energia que reside no anel atlante, e por vezes pode bloquear a energia do núcleo cósmico. Este bloqueio baseia-se na superioridade e no medo. As pessoas habituadas a ter muito poder, que o perdem ao reencarnar, sentem medo. Quando se está habituado a ter poder, viver sem ele é assustador. Este medo que permanece no anel atlante é a raiz de muitas teorias da conspiração que lemos hoje.

Após a queda da Atlântida, os trabalhadores da luz reencarnaram sem poder entre os povos da Terra. Nesta encarnação, experimentaram os resultados do seu trabalho como governantes atlantes. Embora as suas cidades já não existissem, o impacto psicológico manteve-se. De certa forma, construíram a sua própria prisão, pois na Terra existiam pessoas que interiorizaram a sociedade atlante, as suas estruturas de poder associadas e a rígida ordem social. De forma semelhante, as pessoas criaram religiões para subjugar outras. Aqueles que perceberam que a vida poderia ser diferente na Terra acabaram por se tornar prisioneiros da sua própria criação. Guerrearam, tentaram promover a mudança e encontraram resistência em todos os lugares. A população tinha uma aversão intuitiva por eles, causada por memórias inconscientes dos seus antigos opressores e por serem diferentes.

Além disso, a interação social com as pessoas na Terra não era algo óbvio para eles. Não estava nos seus genes, pois nunca aprenderam a construir relações. Não compreendiam como as coisas funcionavam, principalmente porque aqueles que estavam no poder, no topo da hierarquia, careciam de compreensão humana, enquanto aqueles que estavam na base da hierarquia sim. Estavam mais focados e habituados a controlar o mundo exterior através do exercício do poder e eram considerados alienígenas. Havia pouca ou nenhuma tolerância para com o diferente. Para os antigos atlantes, foi uma época de perseguição, opressão e desespero em relação à vida e à existência.

Muitas pessoas que têm memórias disso de vidas passadas sentem-se vítimas. Recordam as perseguições, a crueldade e a estupidez dos seus semelhantes. O erro psicológico que cometeram foi querer restaurar o poder dinâmico original dos Atlantes. As pessoas não os deviam ter escutado, pois sabiam mais, mas já não tinham poder nenhum. Seguiu-se muito sofrimento porque regressaram à antiga abordagem de dominar os outros, mas não lhes restava poder real. Não tinham forma de transmitir conhecimento através do amor e da amizade e eram desprovidos de competências sociais. Tiveram de experimentar o valor da impotência e não conseguiram enfrentar o verdadeiro problema que tinham pela frente: a solidão. Para eles, a solidão era pior do que a dor da perseguição. Não tinham capacidade para fazer nada a esse respeito, nenhuma experiência de como trocar igualmente o tipo de energia que ocorre numa amizade. Conectar-se com o outro é uma competência que se aprende depois de viver muitas vidas sem ela e de romper continuamente os laços com as pessoas.

Apesar do sofrimento, esta foi uma fase significativa do ponto de vista psicológico. Foi um confronto com a mentalidade interna movida pelo poder, com um convite para se libertar dela e abraçar uma espiritualidade pura. A luta externa contra as estruturas existentes era, essencialmente, uma luta interna. Era tempo de silenciar e voltar-se para o interior, para redescobrir a sua origem cósmica. A impotência obriga, em última análise, a pessoa a abraçar o único poder verdadeiro que existe: o Amor.

A solução de se voltar para o interior veio com dor e sofrimento. Mais cedo ou mais tarde, procuraram o silêncio e a solidão, curando as ligações quebradas pelo pensamento de poder atlante. Restauraram as suas ligações com a natureza e o cosmos — e consigo próprios. Estar sozinho já não significava estar só, e a paz interior dissipou a necessidade de converter e dominar.

Frequentemente, para sua surpresa, aqueles que alcançaram esta transformação descobriram que as pessoas queriam procurá-los em busca de conselhos, cura ou pressentiam o que era a verdadeira espiritualidade quando estavam por perto. Sentiam-se vistos. As coisas começaram a fluir. Agora que tinham abandonado a mentalidade de poder, os atlantes descobriram que a natureza terrena é belíssima e que as pessoas queriam estar com eles por quem eram. Ser você mesmo atrai os outros. E assim, foram restauradas as ligações quebradas com a terra, as pessoas e a natureza. Surgiram o amor mútuo, a amizade e o respeito. Isso era infinitamente mais valioso do que o poder.

O Anel Humano: Na viagem juntos

O poder leva à solidão, e a solidão faz-nos ansiar por conexão. O sofrimento desnecessário surgiu porque a atitude psicológica em relação ao poder ainda não tinha sido erradicada. A conexão é possível quando abandona o pensamento baseado no poder e se aproxima do mundo que o rodeia com amor. Esta foi uma lição dolorosa para os atlantes.

O amor restaura ligações quebradas. A cura acontece quando a impotência e a vulnerabilidade são aceites. A amizade e o amor fluem novamente. Os Trabalhadores da Luz foram mais uma vez aceites por quem eram. A luz interior brilha através dos canais da vulnerabilidade e da honestidade. A fusão dos Trabalhadores da Luz com os habitantes da Terra foi o potencial início de um magnífico processo de florescimento, o nascimento do ser humano cósmico.

Após a queda da Atlântida, os trabalhadores da luz reencarnaram sem poder entre os povos da Terra. Nesta encarnação, experimentaram os resultados do seu trabalho como governantes atlantes. Embora as suas cidades já não existissem, o impacto psicológico manteve-se. De certa forma, construíram a sua própria prisão, pois na Terra existiam pessoas que interiorizaram a sociedade atlante, as suas estruturas de poder associadas e a rígida ordem social. De forma semelhante, as pessoas criaram religiões para subjugar outras. Aqueles que perceberam que a vida poderia ser diferente na Terra acabaram por se tornar prisioneiros da sua própria criação. Guerrearam, tentaram promover a mudança e encontraram resistência em todos os lugares. A população tinha uma aversão intuitiva por eles, causada por memórias inconscientes dos seus antigos opressores e por serem diferentes.

Além disso, a interação social com as pessoas na Terra não era algo óbvio para eles. Não estava nos seus genes, pois nunca aprenderam a construir relações. Não compreendiam como as coisas funcionavam, principalmente porque aqueles que estavam no poder, no topo da hierarquia, careciam de compreensão humana, enquanto aqueles que estavam na base da hierarquia sim. Estavam mais focados e habituados a controlar o mundo exterior através do exercício do poder e eram considerados alienígenas. Havia pouca ou nenhuma tolerância para com o diferente. Para os antigos atlantes, foi uma época de perseguição, opressão e desespero em relação à vida e à existência.

Muitas pessoas que têm memórias disso de vidas passadas sentem-se vítimas. Recordam as perseguições, a crueldade e a estupidez dos seus semelhantes. O erro psicológico que cometeram foi querer restaurar o poder dinâmico original dos Atlantes. As pessoas não os deviam ter escutado, pois sabiam mais, mas já não tinham poder nenhum. Seguiu-se muito sofrimento porque regressaram à antiga abordagem de dominar os outros, mas não lhes restava poder real. Não tinham forma de transmitir conhecimento através do amor e da amizade e eram desprovidos de competências sociais. Tiveram de experimentar o valor da impotência e não conseguiram enfrentar o verdadeiro problema que tinham pela frente: a solidão. Para eles, a solidão era pior do que a dor da perseguição. Não tinham capacidade para fazer nada a esse respeito, nenhuma experiência de como trocar igualmente o tipo de energia que ocorre numa amizade. Conectar-se com o outro é uma competência que se aprende depois de viver muitas vidas sem ela e de romper continuamente os laços com as pessoas.

Apesar do sofrimento, esta foi uma fase significativa do ponto de vista psicológico. Foi um confronto com a mentalidade interna movida pelo poder, com um convite para se libertar dela e abraçar uma espiritualidade pura. A luta externa contra as estruturas existentes era, essencialmente, uma luta interna. Era tempo de silenciar e voltar-se para o interior, para redescobrir a sua origem cósmica. A impotência obriga, em última análise, a pessoa a abraçar o único poder verdadeiro que existe: o Amor.

A solução de se voltar para o interior veio com dor e sofrimento. Mais cedo ou mais tarde, procuraram o silêncio e a solidão, curando as ligações quebradas pelo pensamento de poder atlante. Restauraram as suas ligações com a natureza e o cosmos — e consigo próprios. Estar sozinho já não significava estar só, e a paz interior dissipou a necessidade de converter e dominar.

Frequentemente, para sua surpresa, aqueles que alcançaram esta transformação descobriram que as pessoas queriam procurá-los em busca de conselhos, cura ou pressentiam o que era a verdadeira espiritualidade quando estavam por perto. Sentiam-se vistos. As coisas começaram a fluir. Agora que tinham abandonado a mentalidade de poder, os atlantes descobriram que a natureza terrena é belíssima e que as pessoas queriam estar com eles por quem eram. Ser você mesmo atrai os outros. E assim, foram restauradas as ligações quebradas com a terra, as pessoas e a natureza. Surgiram o amor mútuo, a amizade e o respeito. Isso era infinitamente mais valioso do que o poder.

O Anel Humano: Na viagem juntos

O poder leva à solidão, e a solidão faz-nos ansiar por conexão. O sofrimento desnecessário surgiu porque a atitude psicológica em relação ao poder ainda não tinha sido erradicada. A conexão é possível quando abandona o pensamento baseado no poder e se aproxima do mundo que o rodeia com amor. Esta foi uma lição dolorosa para os atlantes.

O amor restaura ligações quebradas. A cura acontece quando a impotência e a vulnerabilidade são aceites. A amizade e o amor fluem novamente. Os Trabalhadores da Luz foram mais uma vez aceites por quem eram. A luz interior brilha através dos canais da vulnerabilidade e da honestidade. A fusão dos Trabalhadores da Luz com os habitantes da Terra foi o potencial início de um magnífico processo de florescimento, o nascimento do ser humano cósmico.

A luz que irradiamos atrai os outros. Não são as nossas palavras, nem as nossas ideias; é a nossa beleza interior. A impotência não é um castigo; é um estado que nos permite reconectar, encontrar a cura para a nossa solidão. Ao longo de todas as vidas que vivemos como forasteiros, sentindo-nos sozinhos e em sofrimento, encontramos agora a paz. Essa paz reside nos nossos corações. É a paz da nossa luz interior, da nossa verdade cósmica. Agora estamos a caminho juntos. Não estamos acima de ninguém, como pensávamos na era da Atlântida, mas estamos a caminho de baixo. Gradualmente, estamos a mudar o fluxo de consciência subjacente da humanidade, a nota fundamental do conhecimento. A purificação e a cura vêm de dentro.

No fim, somos sábios. Uma pessoa sábia respeita as experiências dos outros, sabe que são únicas e sabe que pode aprender algo com todos. Uma pessoa sábia nunca usa a força quando partilha o seu conhecimento e perceções, mas demonstra sempre respeito e amor pelos outros. Uma pessoa sábia espera que os outros venham ter com ela. Uma pessoa sábia ousa mostrar a sua vulnerabilidade e pequenez. Uma pessoa sábia ama-se a si própria, mesmo com todos os seus defeitos.

A consciência de quem se é traz a mudança que o mundo precisa. A consciência de quem é surge quando faz as pazes com tudo o que está dentro de si; com todas as vidas, até mesmo com os agressores e as vítimas que fizeram parte da longa viagem até si mesmo.

E a maior viagem de todas é o regresso a casa.

© Gerrit Gielen

Traduzido por  http://achama.biz.ly  com agradecimentos a:

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